domingo, 12 de abril de 2009

O fim de uma era - Revista de História - Homenagem

Lorenzo Aldé

Ilustrar histórias em quadrinhos é para poucos. Ilustrar em quadrinhos a História, com maiúscula, nem se fale. No Brasil, este ofício era sinônimo de um único homem.

No dia 20 de dezembro de 2007, sem que o país se desse conta, morreu Ivan Wasth Rodrigues, aos 80 anos. Sobrinho e discípulo do grande pintor José Wasth Rodrigues (1881-1957), Ivan deixa como principal legado de sua vasta produção as obras-primas História do Brasil em Quadrinhos I e II (1959 e 1962) e Casa-Grande & Senzala em Quadrinhos (1981).

Cada quadrinho é uma pintura original em aquarela. E a excelência do resultado vai além da técnica. Durante mais de quatro décadas, Ivan foi um obcecado estudioso de temas históricos, para retratar o mais fielmente possível os personagens, os ambientes, a arquitetura e os costumes de todos os períodos da vida nacional.

Quem tem mais de 30 anos provavelmente retém no imaginário cenas históricas cunhadas pelo artista. Ele foi um dos ilustradores do Atlas Histórico e Geográfico Brasileiro, utilizado pelo MEC nas salas de aula nas décadas de 1960 e 70. “Ouvi mais de uma vez que o conhecimento histórico do Ivan ia bastante além do que possuíam os escritores”, lembra o artista plástico J. Bezerra, que no início da carreira cruzava o Rio de Janeiro para ir tomar lições de desenho da anatomia humana com Wasth, a quem define como “um verdadeiro sacerdote da arte, um alquimista que transcendia quando trabalhava, com esmero, cuidado, responsabilidade e amor”.

Em 2003, numa das poucas homenagens públicas que Ivan recebeu em vida, o editor Naumim Aizen atestou o mesmo: “Em determinado trecho, ele precisava colocar na ilustração a figura de Calabar, das Guerras Holandesas, de quem havia apenas fontes coevas. Pois Ivan, conscienciosamente, leu todos os documentos. E com a paciência que lhe é própria, recriou a figura de Calabar, fazendo-lhe um verdadeiro e maravilhoso retrato falado”.

Naumim era adolescente quando conheceu Ivan, na década de 1950. O pintor viera de São Paulo para morar com o tio José Wasth e com ele aprimorar sua técnica. Seu trabalho impressionou Adolfo Aizen, pai de Naumim e dono da Editora Brasil-América (Ebal), durante décadas líder na publicação de quadrinhos no país. Pela Ebal, além da História do Brasil em Quadrinhos, Ivan Wasth produziu uma versão ilustrada de O Sertanejo, de José de Alencar, que seria lançada em encarte da revista Vida Doméstica mas não chegou a ser publicada.

Naquele tempo surgiu na editora a idéia de quadrinizar o clássico Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Ocupado com o Atlas do MEC, Ivan não pôde assumir a missão. “Pelo menos cinco desenhistas aceitaram a incumbência e desistiram, tamanha a complexidade do trabalho”, conta Naumim. O projeto só saiu da gaveta em 1980, em comemoração aos 80 anos de Freyre. Ivan mergulhou na obra e a finalizou em seis meses, colhendo unânimes elogios pela adaptação, inclusive do próprio Gilberto Freyre.

Parte da produção de Ivan Wasth Rodrigues tem paradeiro desconhecido. “Ele não sabia cobrar, muitos o exploravam. Um dia, um padre de São Paulo esteve em nossa casa e se interessou por um conjunto de aquarelas. Ele deu de mão beijada”, lamenta Suely Jesus de Souza Surisan, viúva de Ivan. Mestre de capoeira, nos últimos quatro anos ela teve que deixar de trabalhar para cuidar da frágil saúde do marido, com quem vivia havia 25 anos. Ivan sofria do mal de Parkison e da doença de Alzheimer.

Ainda juntando os cacos do longo sofrimento e da recente perda, Suely não sabe o que fazer com as preciosidades de que se tornou guardiã. Aos poucos, começa a botar ordem no apartamento de Botafogo, o mesmo em que o velho José Wasth recebeu, há mais de meio século, seu promissor sobrinho vindo de São Paulo. Por toda parte acumulam-se pastas com aquarelas originais, muitas inéditas, dezenas de cadernos com estudos e apontamentos e uma rica biblioteca em vários idiomas. “Não tenho coragem de me desfazer das coisas dele. Pensei em doar para o Museu da República, onde ele trabalhou. Mas, entra diretor, sai diretor, não sei o que pode acontecer”, diz Suely.

Sabe-se que Ivan deixou uma obra pronta e não lançada: a adaptação ilustrada dos textos do francês André Thévet (1502-1590) sobre a França Antártica. Deixou também um desafio para a arte brasileira: produzir novos ilustradores históricos que dêem continuidade à magnífica herança dos Wasth Rodrigues.

2 Comments:

violoesguitarra said...

Tenho andado muito sumido e consequentemente perdi boas coisas publicadas aqui. Cheguei a tempo de ler sobre o Ivan Rodrigues, de quem vi alguns trabalhos sem me lembrar no entanto. Acho que ele era um dos principais ilustradores das capas das revistas da EBAL.
Achei também interessante a referência à charge do Fortuna no Correio da Manhã de 1966. Eu era um leitor assíduo (comprava de sociedade com um amigo, todos os dias) nos anos de 1960 e 1961. Gostava das charges de um desenhista que se assinava Cachirulo. Fiz uma pesquisa noutro dia mas não consegui encontrá-lo.

Quando eu demorar a vir aqui, vê se me cutuca...

Grande abraço

Cris said...

Obrigada pelo carinho e volte sempre, tb não tenho tido tempo de visitar os amigos, e manter o blog atualizado para divulgar nossa cultura é um pouco complicado com a vida de estudante e as vezes apenas faço recorte de noticias, mas o q importa é divulgar, é acender o interesse dos amigos por toda forma de expressão cultural da humanidade, que é nosso patrimônio maior, bjos